Segunda-feira, meio da manhã, destino Estação Ferroviária João Felipe. No caminho tenho a sensação de estar fazendo um City Tour pelo centro Histórico de Fortaleza. O ônibus sai da minha casa pela avenida Aguanambi sentido D. Manoel, no caminho vejo o Dragão do Mar, o Mercado Central de frente para o Forte N. S. da Assunção, depois o Passeio Público e ao fundo o Mar da Leste-Oeste, daí continua até a antiga cadeia publica (hoje centro de artesanato) onde desço do transporte.Como o horário de pico no trânsito já havia passado, tudo parece mais calmo. Estranho, pois esperava encontrar o ritmo acelerado da segunda-feira. Pela fachada, a estação João Felipe tem uma arquitetura estilo art decó. Sinto-me voltando no tempo e já no Hall de entrada vejo uma placa que indica "Construído por Dom Pedro II". O passado me deixa por alguns instantes, percebo que no terminal há lanchonetes, televisor na parede e até uma ilha digital montada pelo Sesi no vagão de um trem reformado.
Continuo minha expedição fotografando os espaços do terminal de trem. As pessoas me olham com curiosidade, uma senhora até me perguntou se eu era de fora. Ouço uma campainha e vejo as pessoas começarem a se apressar. Caminho até o guichê para comprar a passagem de trem, tento pagar meia, mas o caixa me informa que deveria ter comprado o bilhete em outro lugar. Me envergonho pela falta de prática, não queria ser vista como turista, por isso, digo que esqueci e pago inteira mesmo, um real. Ainda bem que não precisei escolher o destino naquele momento.
A Estação não está lotada, mas algumas pessoas correm para não perder o trem que está saindo. Vou andando bem devagar prestando bastante atenção como se fosse a primeira vez que entro ali. Já andei de trem na João Felipe algumas vezes, sempre fazendo trabalho do colégio ou faculdade, como agora. Nunca peguei o trem pela simples necessidade de me locomover até a região metropolitana de Fortaleza.
Deste lado, sinto, novamente, retornando a um passado. Mesmo com as pessoas vestindo malhas e jeans, com fones de ouvido e sacolas de plástico , o ambiente é bucólico. A paisagem e o som do trem me provocam saudade. Estranho, de quê eu não sei, não vivi nada marcante nesse lugar. O som do trem desperta minha atenção, ao olhar vejo que sai fumaça da máquina, como nas antigas Marias Fumaças, me pergunto o que será que alimenta os trens de Fortaleza.
Caminho até o fim da parada aonde os trens passam. Vejo homens trabalhando nas ferragens e minha vontade é descer pelos trilhos, no entanto, por medo que os funcionários me chamem atenção desisto. Por que não peço autorização? Estou fazendo um trabalho para a Universidade. Sou tão desinibida para essas coisas, tenho tantas perguntas a fazer, podia discutir sobre o metro de Fortaleza talvez, fotografei até uma placa de 1997 que diz o montante do investimento na época, R$ 534.175.103,08. Não faço nada disso, deixo o vento e a sensação de nostalgia me envolverem. A oportunidade de parar e estranhar um pouco a vida me seduz mais do que a investigação jornalística. Quero ficar só, calada, faz muito que não fico assim. Fim de semestre é sempre uma loucura.
Penso em pegar o trem, caminho em direção a um que acaba de chegar, será que vai para Maracanaú, Caucaia ou apenas Barra do Ceará. Olho para um relógio antigo na parede do terminal e vejo que já são 11h. Lembro que não vai dar tempo, tenho compromissos a tarde e preciso tentar ao menos almoçar. Ainda assim entro no trem e faço umas fotos. As pessoas nas cadeiras parecem não gostar muito da presença da minha câmera. Este vagão aparenta ser novo, talvez seja um dos reformados que vi no jornal. Entro em outro vagão, mais acabadinho, mal acabo de fotografar ouço a sineta avisando a saída do trem, mas um lembrete de que o tempo não pára. Saio do vagão.Gostaria que o trem me levasse pra longe, lugares inusitados e misteriosos, todo trem tem um quê de mistério. No entanto, esse aqui de Fortaleza aparenta viver no limiar entre o charme e o desprezo, só me levaria a lugares populares, comerciais e industriais. Nossa! Quanta arrogância nas minhas palavras, imagine o números de pessoas que precisam do trem para trabalhar em Fortaleza? Elas são a verdadeira razão de ainda existir este transporte ferroviário.
Já de saída da estação decido perguntar a um funcionário o que está fazendo nos trilhos. Ele conta que todos os dias limpa com um facão os trechos em que os trilhos mudam de direção, tira pedras e capim, em seguida um outro homem passa óleo nas ferragens. Penso como um sistema inventado há tanto tempo ainda perdura nos dias de hoje. Já estou me desconcentrando do estranhamento, preocupo-me sobre o quê escreverei para a disciplina do professor Eduardo, queria estar de férias, calma falta pouco.
De volta ao hall a caminho da saída decido tomar uma água de coco, talvez uma tentativa de prolongar essa manhã. Quem me vende a bebida é uma moça chamada Sueli, simpática ela começa a me perguntar sobre fotografia, se sou de Fortaleza mesmo, quando digo sim ela afirma que morei fora. Sou receptiva, porém um pouco monossilábica, ela não se intimida e começa a me contar sua vida, diz ter adotado uma menina maravilhosa e vai busca-lá para que eu bata um foto delas. De fato a bebê é linda e até parece com a Sueli. Daí, faço várias fotos e ainda saio prometendo uma volta a estação para levar as fotografias reveladas.
Na volta para casa penso como as vezes é simples quebrar a rotina, basta se permitir. Esta semana disse a uma amiga que de tão cansada até tinha preguiça de para falar com possíveis conhecidos na rua. Me senti horrível com essa constatação. Logo eu tão afetiva! Sueli, a vendedora que mal me conhecia, me tratou de forma tão amigável e tocou meu coração. Ele me fez perceber as minhas correrias podem me fazer mesquinha. A mim resta uma esperança, pois estar sensível diante as observações confessadas nesse blog revelam meus traços de humanidade. É importante perceber que a automatização não tomou minha vida.
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